Nas últimas semanas, uma série de incidentes de violência contra mulheres tem dominado os noticiários e redes sociais. O feminicídio de uma policial militar em São Paulo e o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro são alguns dos casos que trazem à tona uma questão alarmante: a misoginia. Vídeos na plataforma TikTok, onde homens simulam ataques a mulheres que rejeitam pedidos de casamento, ampliam essa discussão.
Esses eventos não são isolados, mas parte de uma engrenagem complexa de misoginia que abrange desde experiências pessoais de frustração até estruturas econômicas e projetos políticos globais, segundo especialistas da Agência Brasil.
A questão precisa ser entendida sob uma perspectiva histórica, com grupos de ódio crescendo impulsionados pela expansão dos ambientes virtuais. A socióloga Bruna Camilo afirma que a violência contra mulheres é antiga e que a internet potencializa esse problema. O psicólogo social Benedito Medrado Dantas acrescenta que a intensificação das expressões de ódio é uma reação às conquistas femininas.
“Quando as mulheres começaram a ocupar outros espaços na sociedade, isso mexe nas estruturas familiares e sociais,” diz Dantas.
Pesquisadores identificaram que meninos cada vez mais jovens são atraídos para a chamada “machosfera”, que reúne fóruns e canais de vídeos que promovem um padrão conservador de masculinidade. A ativista Lola Aronovich relata seu choque ao descobrir que meninos de 12 a 14 anos são o principal alvo desse recrutamento virtual.
Para os homens, a adesão a ideias que estimulam a opressão e a violência contra as mulheres está relacionada a frustrações pessoais e inseguranças. O psicólogo Benedito Medrado Dantas observa que adolescentes vulneráveis são facilmente atraídos por conteúdos que promovem a masculinidade violenta.
“Conteúdos violentos chamam a atenção desses jovens, especialmente quando eles não têm espaço de diálogo em casa,” explica.
As comunidades online utilizam o humor e os memes para disseminar mensagens de ódio com facilidade. Esses grupos, muitas vezes liderados por homens mais velhos, se aproveitam da vulnerabilidade de adolescentes e homens em situação econômica instável.
“Esses líderes são frequentemente ressentidos e, em muitos casos, também têm aversão às próprias mães,” afirma a socióloga Bruna Camilo.
Apesar de avanços, como a Lei nº 13.642/2018, que investiga crimes de ódio contra mulheres online, há lacunas importantes a serem preenchidas, entre elas a criminalização da misoginia. Especialistas afirmam que é fundamental criar canais de diálogo e promover ações educativas voltadas para meninos e adolescentes como meio de transformação social.