Justiça
14h30 19 Janeiro 2026
Atualizada em 19/01/2026 às 14h30

Polícia investiga se mulher entregou bolsa para médico que matou colegas em Alphaville

Por José Maria Tomazela Fonte: Estadão Conteúdo

Andreas Schiffmann, delegado de Barueri, vai ouvir a mulher que estava na companhia do médico Carlos Alberto Azevedo Silva Filho, de 44 anos, que matou a tiros dois colegas e profissão, em um restaurante de Alphaville, na Grande São Paulo.

Testemunhas disseram que ela teria entregue ao atirador uma bolsa onde estaria a arma usada no crime. Se isso aconteceu e ela tinha ciência da arma, a mulher também pode responder pelo crime, segundo o delegado.

A identidade dela é preservada. Carlos Alberto Azevedo Silva Filho foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva. A reportagem tenta contato com sua defesa.

As vítimas, os médicos Luís Roberto Pellegrini Gomes, de 43 anos, e Vinícius dos Santos Oliveira, de 35, foram socorridas, mas morreram no pronto-socorro.

O delegado Schiffmann disse ao Estadão que, pelas imagens das câmeras existentes no local, a dinâmica do crime ficou bem clara. Mas as investigações ainda precisam aprofundar na motivação e na possível participação dessa segunda pessoa no polo ativo dos crimes.

"Já sabemos quem é a mulher, mas não consegui ouvi-la ainda. Tem esses comentários de que ela poderia ter entregue a bolsa com a arma. Ainda estamos examinando as imagens para ver exatamente o que aconteceu e estou atrás dela para ouvir ainda hoje (segunda-feira, 19) ou amanhã (terça-feira, 20)", afirma Schiffmann.

Conforme o delegado, se a mulher entregou a bolsa sabendo que tinha uma arma, "para ajudar, auxiliar ele no momento do crime", ela pode responder por coautoria ou participação. "No Brasil, conforme nossa legislação, todo mundo que auxilia de alguma forma ou concorre para o crime responde por ele, mas ela teria que ter consciência, pelo menos saber que tinha uma arma ali."

Encontro teria sido por acaso

Schiffmann diz que as indicações, até agora, são de crime por motivação financeira. "Tudo indica que havia uma disputa com fundo econômico. Formalmente, ele (Silva Filho) ficou em silêncio, mas ele me falou que tinha questões com essa pessoa (Luís Roberto) em razão de vários contratos, inclusive contratos de licitação. Ele não me falou qual contrato, onde, mas me passou que as duas empresas, a dele e da vítima, eram de gestão hospitalar."

Ainda segundo o delegado, a outra vítima do atirador, o também médico Vinícius Oliveira, era funcionário do Luís Roberto, ocupando cargo de diretor ou função semelhante em uma das empresas dele. "A gente vê nas imagens que o Carlos Alberto começa a bater no amigo dele e ele se levanta e tenta defender o Luís Roberto, e acaba se envolvendo na briga. Depois que eles saem, o outro médico vai atrás."

O delegado diz que, em princípio, os três médicos se encontraram por acaso no restaurante de Alphaville. Silva Filho já estava no local quando Luís Roberto e Vinícius chegaram, ocupando uma das mesas de espera.

Foi quando Silva Filho se levanta, vai em direção a Luís e se inicia uma discussão acalorada. Momentos depois, quando os funcionários já tinham apartado a briga, os guardas civis intervêm e revistam o médico que faria os disparos, constatando que ele não estava armado.

'As imagens falam por si só'

Os fatos se deram de forma muito rápida, mas foram registrados pelas câmeras. "As imagens falam por si só. A gente tem de aprofundar um pouquinho mais na questão da participação dessa outra pessoa [a mulher que teria passado a bolsa] e um pouco mais na motivação, ver alguma coisa mais concreta nessa motivação, mas as imagens são decisivas para a exposição dos fatos."

O delegado diz que vai pesquisar os antecedentes de Carlos Alberto, pois constou na audiência de custódia que ele estava em liberdade provisória por uma condenação anterior em Aracaju. "O juiz, na decisão da [audiência de] custódia comenta que ele está em liberdade provisória por conta de um processo no Sergipe. Como é outro Estado, ainda não tivemos acesso ao processo, mas vamos verificar isso também."

Outra questão a ser melhor esclarecida é a da arma. Segundo o delegado, o médico que atirou nos colegas disse que a arma era dele e que ele tinha registro como CAC [Colecionador, Atirador, Caçador]. "Ele falou que era CAC e que a arma estava em nome dele, mas não apresentou a documentação. Se a arma estava regular ou não, isso ainda não consta para mim, pois dependo da informação que o Exército vai me enviar."

O delegado pondera ser difícil dizer o que levou três médicos jovens e bem estabelecidos a terminarem de forma tão trágica. "Ele [Carlos Alberto] diz que as ameaças já vinham acontecendo de ambos os lados, mas para chegar a esse ponto é difícil imaginar. Peguei um caso em Alphaville do vizinho que matou os dois vizinhos do andar de cima e se matou, mas era por barulho. Com essa motivação por causa de dinheiro, eu não tinha visto ainda."

No caso anterior, em 2013, incomodado com o barulho dos vizinhos, em um condomínio de luxo de Alphaville, um empresário com 62 anos à época invadiu o apartamento e matou o casal de vizinhos a tiros. Em seguida, se matou.

Para o delegado, o caso dos médicos é de duplo homicídio doloso com duas qualificadoras que agravam o crime. Uma delas é o motivo torpe ou repugnante, por envolver disputa por dinheiro. A segunda é caracterizada pela impossibilidade de defesa das vítimas, que foram surpreendidas pelos disparos quando já deixavam o local.

Como foi o crime

O crime ocorreu na noite de sexta-feira, 16, em um restaurante de Alphaville. Imagens de câmeras de segurança mostram Silva Filho se aproximando da mesa onde estavam as vítimas e iniciando uma discussão. Em determinado momento, ele agride Luís Roberto, e Vinicius tenta intervir, entrando em luta corporal com o atirador. Funcionários do restaurante tentaram separar os três.

Após a briga, Luís Roberto e Vinicius deixaram o restaurante. Pouco depois, Silva Filho retornou armado e disparou várias vezes contra os dois, que morreram no local.

Agentes da Guarda Civil, que estavam nas proximidades, renderam e algemaram o médico, que foi preso em flagrante. No sábado, 17, Silva Filho passou por audiência de custódia e teve a prisão convertida em preventiva.

Luís Roberto era cardiologista e trabalhava em um hospital municipal de Barueri. Ele recebeu vários tiros. Seu corpo foi velado e enterrado em Rafard, no interior de São Paulo. Vinicius, atingido por dois tiros, atuava em unidades de saúde de Cotia. Ele era funcionário de Luís Roberto e deixou esposa e um filho de 1 ano e meio. Seu corpo foi sepultado em Osasco.

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