A Velhinha de Taubaté foi um dos principais personagens criados por Luis Fernando Verissimo. A senhorinha que passava o dia em frente à TV e acreditava nos mais diversos políticos era das formas que o escritor encontrava para fazer, ao mesmo tempo, humor e crítica. Em 2005, durante a eclosão do escândalo político conhecido Mensalão, decidiu 'matar' a personagem.
A morta da Velhinha de Taubaté
O texto "Velhinha de Taubaté (1915-2005)" foi publicado no Estadão em 25 de agosto de 2005. "Morreu, no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como 'A Velhinha de Taubaté'", "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo", anunciava.
Em seguida, relembrava que a fama da personagem tinha surgido no governo Figueiredo, o último presidente do regime militar, e, desde então, acreditado em nomes como Delfim Netto, José Sarney e Fernando Collor. "A velhinha sempre acompanhou política e acreditou em todos os governos desde o de Getúlio Vargas".
Verissimo ainda destacava informações de sua sobrinha Suzette, dizendo que "a Velhinha já tivera um pequeno acidente vascular ao saber da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em quem ela acreditava muito". A senhora de Taubaté estava acompanhando as CPIs e "acreditava que como todos estavam dizendo a verdade a crise acabaria logo, mas ultimamente começara a dar sinais de desânimo e, para grande surpresa da sobrinha, descrença".
"A Velhinha acreditara em Lula desde o começo e até rebatizara o seu gato, que agora se chamava Zé. Acreditava principalmente no Palocci. Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio", encerrava Luis Fernando Verissimo.
Por que Verissimo 'matou' a Velhinha de Taubaté
Àquela época, o escritor fez parte da 11.ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. O Estadão cobria o evento e conversou com Verissimo a respeito do tema. Foi uma forma lúdica que o autor encontrou para demonstrar sua indignação com denúncias de corrupção envolvendo o governo federal no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidente.
"Nem o ministro Palocci merece mais confiança. Não se trata apenas de uma ameaça à existência de um partido, o PT, mas comprova a existência de uma oposição movida a ideologia que pretende acabar totalmente com a esquerda no Brasil", justificava Luis Fernando Verissimo.
O autor ainda brincava que uma volta da Velhinha de Taubaté não estava totalmente descartada: "Com os avanços da medicina atual, ela pode estar mantida por aparelhos ou até pode ser clonada".
Políticos reagiram à morte da Velhinha de Taubaté
O Estadão também trouxe a repercussão da morte da Velinha de Taubaté em 2005 entre políticos que tinham mandato no Congresso à época. Relembre algumas das reações abaixo:
"Agora nem ela. Era a última a acreditar" - Cristovam Buarque (PDT-DF), senador.
"Ela é imortal. Prefiro a velhinha chocada e chorosa a um governo morto. É preciso ter alguém que acredita nas coisas. O último sopro da esperança. Por isso, ela é imortal" - Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), senador.
"Como diz São Francisco de Assis, a melhor maneira de homenagear os mortos que a gente admira é fazer o que eles fizeram. Então, a lição da Velhinha de Taubaté é a esperança de acreditar no que as pessoas dizem e prometem" - Chico Alencar (PT-RJ), deputado federal.
"Para mim, ela não resistiu a tanta decepção. Acreditou no PT por mais de 25 anos e torceu pelo presidente Lula" - Heráclito Fortes (PFL-PI), senador.
'Estamos cheios de Velhinhas de Taubaté por aí'
Mais de uma década depois, em entrevista ao Estadão em 2016, Verissimo se descreveu como um "esquerdista desiludido" e foi perguntado se ainda existiriam "muitas velhinhas de Taubaté" àquela época.
"A velhinha de Taubaté foi um comentário naquele momento do Figueiredo, o fim dos governos militares. Então, ela tinha essa função de criticar a falta de credibilidade do governo através de uma ficção, de uma figura inventada. E hoje eu não sei o que a velhinha de Taubaté diria dessa situação toda, acho que ela acreditaria em todo mundo, inclusive no Temer. E estamos cheios de velhinhas de Taubaté por aí", respondeu.