Política
12h40 20 Janeiro 2026
Atualizada em 20/01/2026 às 12h40

Agenda 'anti-Barbalho' deve determinar cenário para as eleições no Pará

Por Mirielle Carvalho Fonte: Estadão Conteúdo

A cerca de oito meses das eleições, a disputa pelo governo do Pará ainda está indefinida e marcada pela ausência de uma liderança clara durante a pré-campanha. A agenda "anti-Barbalho" - pauta dos políticos que querem desbancar a família do atual governador Helder Barbalho (MDB) do comando do Poder Executivo estadual - deve determinar o tabuleiro político e as alianças que serão construídas ao longo dos próximos meses.

A corrida eleitoral paraense não será moldada em torno da polarização entre esquerda e direita - como ocorre no cenário nacional -, mas sim amparada em chapas "pró-Barbalho" e "anti-Barbalho", com os componentes da oposição cogitando uma aliança para tirar o "barbalhismo" do poder.

"A família Barbalho, principalmente nessas duas últimas eleições, consolidou uma base de apoio muito forte no tabuleiro político do Estado. Essa influência dos Barbalhos na política paraense é histórica e abrange várias regiões. Existe uma rede de alianças e controle político regional bastante consolidadas, e diversas siglas partidárias que costumam compor a base dos Barbalhos e favorecê-los para uma malha de apoio territorial", analisou Carlos Augusto Souza, doutor em Ciência Política e professor na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Pesquisas de intenção de voto, divulgadas entre julho e outubro de 2025, indicavam uma disputa entre Hana Ghassan (MDB), atual vice-governadora do Pará, e Dr. Daniel Santos (PSB), atual prefeito de Ananindeua, município da região metropolitana da capital Belém.

No levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado no fim de outubro, Daniel aparecia com 26% das intenções de voto, enquanto a vice-governadora registrava 18,7% das intenções. A pesquisa divulgada pelo instituto Real Time Big Data, também em outubro, mostrava Hana com 24% das intenções de voto, enquanto o prefeito Daniel Santos registrava 19%.

Santos não descarta uma aliança com o PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e oposição ao governo atual, para tirar a família Barbalho do poder. "O nosso campo, independentemente de direita ou esquerda, é o campo de quem está cansado da mesma oligarquia Barbalho no poder. Nós vamos focar no nosso Estado e não no cenário nacional", afirmou.

No cenário nacional, o PSB de Santos integra a base do governo Lula. O vice-presidente Geraldo Alckmin é integrante da legenda. O governador Helder Barbalho é um dos principais aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e foi um dos principais apoiadores na campanha eleitoral do petista nas eleições de 2022.

"O Helder costuma movimentar opositores para compor sua aliança, e o opositor da candidata dele, dessa vez, está fazendo o mesmo jogo. O Daniel Santos é um adversário que chega com força e criando embaraços políticos para as possíveis alianças do campo do Helder, na medida em que ele desloca o PSB, que estava na base do governo, para vir em sua oposição", avaliou Leny Campêlo, doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Unidade do bloco governista

De acordo com os especialistas, apesar do apoio político da família Barbalho, a vice-governadora terá pela frente dois grandes desafios para se consolidar como a favorita da disputa eleitoral: o índice de rejeição à sua candidatura e a dificuldade em manter a unidade do bloco governista que sustentou a candidatura de Helder Barbalho nas eleições de 2022.

"O principal desafio é, de fato, manter essa unidade, porque nós já vemos essas dissidências acontecendo. Sabemos que o Helder teve uma base de apoio político muito grande no passado, mas quanto maior o bloco de alianças e mais diversificado ideologicamente ele é, maior a dificuldade de mantê-lo coeso", disse Carlos Augusto Souza, doutor em Ciência Política e professor na UFPA.

Outro obstáculo observado pelo especialista para a candidatura de Hana Ghassan está relacionado à resistência à candidatura da vice-governadora por parte do próprio MDB. O comando da legenda não enxerga, segundo o especialista, com naturalidade a construção de sua candidatura como sucessora de Helder Barbalho.

"Existem ambições pessoais de lideranças regionais que querem ocupar esse espaço, já que a Hana não vem de uma base governista, mas muito mais por uma posição pessoal do governador, e isso pode fazer com que algumas lideranças migrem para a oposição", afirmou.

A oposição, por outro lado, terá dificuldade de neutralizar a máquina pública estadual e lançar uma candidatura viável.

Helder lidera corrida ao Senado

Helder Barbalho lidera com folga a disputa pelo Senado. Segundo levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em dezembro de 2025, o emedebista aparece com 50,8% das intenções de voto no cenário estimulado com mais nomes testados.

A disputa pela segunda vaga está mais acirrada, com o deputado federal Delegado Eder Mauro (PL) na frente, com 32,2% das intenções de voto, seguido pelo ministro do Turismo, Celso Sabino (União Brasil), que soma 22,2%.

Em um segundo cenário testado, sem o delegado Éder Mauro, Celso Sabino entraria na segunda vaga, com 31,4% das intenções de voto, mas em disputa acirrada com o senador Zequinha Marinho (Podemos), com 26,1%. Neste cenário, Helder Barbalho isola-se com 55,9% das intenções.

"Helder deve ser candidato e ganhar a primeira vaga (para o Senado). A disputa principal será pela segunda vaga e ela irá depender do grau de alianças que alguns setores políticos farão com o governador. Acredito que a esquerda talvez tenha um candidato viável, mas claro que a ala conservadora também tentará lançar uma candidatura. Ainda não temos os nomes, mas será uma polarização também", disse o cientista político Carlos Augusto Souza.

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