Educação
07h40 07 Abril 2026
Atualizada em 07/04/2026 às 07h40

Massacre de Realengo, 15 anos: os fatores misóginos por trás do crime

Por Redação TV KZ

Há 15 anos, um massacre chocou o Brasil ao ocorrer na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no Rio de Janeiro. Um jovem entrou armado com dois revólveres e atacou alunos entre 13 e 15 anos, resultando em 12 mortes e 10 feridos. Após ser atingido por tiros de policiais, o atirador cometeu suicídio.

Os motivos que levaram ao Massacre de Realengo têm sido amplamente discutidos. O autor deixou uma carta e gravações em que revela ter sido vítima de bullying durante seu tempo na escola.

A análise do caso muitas vezes ignora um fator crucial: a misoginia. Para ativistas e pesquisadoras feministas, o crime não pode ser visto apenas sob a ótica do bullying, mas também do ódio dirigido às mulheres. Das 12 vítimas, 10 eram meninas e 2 meninos, uma discrepância que levanta questionamentos sobre as motivações do agressor.

“As explicações que surgiram na mídia eram absurdas, como a ideia de que meninas correm mais devagar ou estão sempre nas primeiras fileiras”, critica Lola Aronovich, que estuda a questão. Apesar da versão dominante associar o ato à vingança por bullying, o perfil do autor indica características de um celibatário involuntário, que se sentia representado em comunidades online que celebravam a violência de gênero.

Violência em Escolas

A pesquisadora Cleo Garcia, doutora em educação pela Unicamp, vem investigando a violência em ambientes escolares. Um levantamento recente dela revelou 40 ataques em escolas do Brasil entre 2001 e 2024, com uma escalada alarmante, onde 25 ocorreram entre 2022 e 2024, todos perpetrados por homens.

Garcia destaca que muitos desses atos violentos são resultado de ideologias extremistas e misoginia. Comunidades online têm papel relevante em alimentar esse tipo de comportamento, reforçando sentimentos de frustração e raiva.

“A misoginia é um fenômeno multifatorial. Muitas dessas pessoas têm dificuldade de assumir responsabilidades e direcionam sua raiva contra mulheres”, explica Cleo.

A construção de um modelo de masculinidade tóxica, que hierarquiza e desvaloriza as mulheres, é um fator central em muitos casos de violência. Os jovens frequentemente buscam pertencimento em grupos que exaltam comportamentos agressivos.

Desafios e Soluções

Para enfrentar essa realidade, Garcia sugere que as escolas devem ser um espaço seguro para discussões sobre emoções e gênero, além de estreitar o diálogo com as famílias. Ela defende que a sociedade como um todo deve se envolver mais na questão da saúde mental e na formação das crianças.

“É essencial que haja investimentos na educação, nas políticas sociais e na saúde mental. A responsabilidade pela violência de gênero é coletiva”, complementa.

Segundo Lola Aronovich, para coibir a violência é necessária uma abordagem integrada que inclua educação, segurança pública e regulação das plataformas digitais. “As escolas devem promover espaços de conversa supervisionados, onde os jovens possam discutir suas vivências online, e os pais precisam estar atentos ao que seus filhos fazem na internet.”

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