Saúde
18h51 24 Março 2026
Atualizada em 24/03/2026 às 18h51

Vacinação contra HPV avança, mas mortes ainda preocupam

Por Redação TV KZ Fonte: Agência Brasil

A vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) tem avançado na América Latina, mas o continente ainda enfrenta desafios significativos, como mortes ocasionadas por câncer de colo do útero, uma condição que pode ser amplamente prevenida. Esta preocupação é destacada em um estudo divulgado em fevereiro na revista The Lancet, que avaliou dados de 35 países e territórios na América Latina e no Caribe.

O HPV é considerado o vírus que provoca a infecção sexualmente transmissível mais comum em todo o mundo, afetando a pele e mucosas. Apesar da disponibilidade de vacinas, a cobertura vacinal varia bastante entre os países da região, alcançando entre 45% e 97% na América Latina e entre 2% e 82% no Caribe. Estes números ainda estão aquém da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde, que visa vacinar 90% das meninas até os 15 anos.

No Brasil, a cobertura vacinal atingiu 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos em 2024. Em resposta à situação, em 2025, o Ministério da Saúde intensificou os esforços vacinais, introduzindo uma dose única e expandindo a faixa etária para incluir jovens de 15 a 19 anos que ainda não haviam sido vacinados.

O Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero é celebrado em 26 de março.

Rastreamento

Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flavia Miranda Corrêa, a América Latina apresenta melhores índices de vacinação e rastreamento em comparação ao Caribe. Contudo, o desafio persiste no modelo predominante adotado na maioria dos países: o rastreamento oportunístico.

Nesse sistema, o exame é realizado apenas quando a mulher busca atendimento por outro motivo ou solicita o procedimento. “Esse modelo é, como sabemos, muito menos eficaz do que um rastreamento organizado, que segue critérios rigorosos e abrange toda a população feminina”, aponta Corrêa em entrevista à Agência Brasil.

Especialistas alertam que essa abordagem pode levar a diagnósticos tardios e, consequentemente, a uma maior mortalidade. O rastreamento organizado, por sua vez, envolve a identificação da população-alvo, que inclui mulheres de 25 a 64 anos, além de convocação ativa e busca ativa das que não comparecem para os exames.

“É ineficaz rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento”, enfatiza a médica.

Corrêa acrescenta que a principal limitação do rastreamento permanece a sua natureza oportunística, o que implica também na falta de garantia de disponibilidade de todos os procedimentos necessários.

Prevenção

Todos os países da América Latina já introduziram a vacinação contra o HPV, exceto a Venezuela. No Brasil, o imunizante entrou para o Calendário Nacional de Vacinação em 2014, e a sua distribuição é totalmente gratuita.

“Estamos nos aproximando da meta global de vacinar 90% das meninas até os 15 anos, conforme preconiza a OMS para a eliminação do câncer do colo do útero, e acredito que conseguiremos alcançá-la”, afirma a especialista.

É fundamental também que os meninos sejam vacinados, visto que o HPV também está associado a tipos de câncer que afetam os meninos, como os cânceres de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de causar verrugas genitais.

Teste DNA-HPV

Em janeiro, a Fundação do Câncer lançou uma atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, que recomenda a substituição progressiva do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV.

Ainda assim, a citologia continua sendo o método mais utilizado na maioria dos países analisados. O teste molecular foi implementado em nações como Argentina, Brasil, Chile, e México, além de alguns países do Caribe.

No Brasil, houve progresso na adoção desse novo exame e na estrutura de atendimento, permitindo que as pacientes sejam encaminhadas da atenção primária à secundária e terciária. Com isso, ao fazer o rastreamento na atenção primária, as mulheres que receberem um diagnóstico positivo são encaminhadas para a investigação diagnóstica em níveis superiores.

Flávia Miranda Corrêa ressalta que a falta de integração entre os diferentes níveis de atendimento pode dificultar o seguimento adequado das pacientes, levando à perda de acompanhamento e, portanto, a um tratamento ineficaz, que é uma das maiores questões enfrentadas no Brasil.

Prevenção e sintomas

Lesões precursoras do câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para progredir, o que amplia as chances de diagnóstico precoce. Quando identificadas em uma fase inicial, a taxa de sucesso do tratamento é muito alta.

Entre os sinais da doença incluem sangramentos fora do ciclo menstrual, após relações sexuais ou na menopausa, além de corrimentos persistentes. Nos estágios mais avançados, alterações urinárias ou intestinais podem surgir.

Estratégia global

O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, defende que a transição para programas organizados de rastreamento, com convites ativos e acompanhamento das pacientes, é crucial. Esse modelo se mostrou eficaz na redução dos casos da doença em países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca.

Conforme o estudo da The Lancet, a integração entre vacinação, rastreamento e tratamento é essencial para alcançar a meta global: 90% de meninas vacinadas, 70% de mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados.

Com essa cobertura, a Organização Mundial da Saúde prevê que a incidência do câncer de colo do útero possa cair a níveis residuais nas próximas décadas.

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