O uso de histórias em quadrinhos (HQs) na educação é uma proposta inovadora capaz de enriquecer o debate sobre questões étnico-raciais. A doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva, ligada ao Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense (UFF), desenvolveu um estudo que mostra como as graphic novels podem auxiliar na formação de professores do Curso Normal, promovendo uma educação mais antirracista.
As graphic novels se diferenciam dos quadrinhos tradicionais por apresentarem histórias mais profundas e ilustrações que capturam a atenção, facilitando a reflexão crítica sobre temas complexos. De acordo com Fernanda, "os estudantes devem ser incentivados a discutir questões raciais durante todo o ano, e não apenas em novembro, quando se comemora o Mês da Consciência Negra". Apesar da Lei 10.639/2003 exigir o ensino de história e cultura afro-brasileira, muitos municípios ainda não cumprem essa norma, levando a uma invisibilidade do tema nas escolas.
Através de um trabalho de campo realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, Fernanda constatou que 95% dos alunos eram negros e que o racismo era discutido apenas de forma superficial. "As HQs podem democratizar as discussões sobre racismo, trazendo histórias de personagens negros que promovem um protagonismo histórico". Ela acredita que a utilização de graphic novels traz leveza ao debate, sem deixar de lado a profundidade necessária para a formação crítica dos futuros docentes.
A professora Walcéa Barreto Alves reforçou a importância desse trabalho, que transcende a teoria e se torna uma ação interventiva, garantindo que os alunos tenham acesso a esses conteúdos desde a formação inicial. A perspectiva positiva da estética étnico-racial em personagens negros é uma das chaves para reverter a narrativa colonialista que frequentemente marginaliza esses indivíduos.
Esse estudo demonstra que as histórias em quadrinhos não são apenas entretenimento, mas sim uma ferramenta pedagógica valiosa que pode ser utilizada em diversas disciplinas, promovendo reflexões essenciais para a formação de uma sociedade mais justa e igualitária.